quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Rostros


Citando o indizível como mensagem de aba, desta contra-capa desfocada! Dias passam, entre segundos e fótons, deixando a cara, perplexa, cada vez menos assustada. Sim, mesmo que os dias causem a nauseabunda perplexidade de quem se aproxima de um cadáver, causa cada vez menos espanto, ao tornarem-se os dias cada vez mais normativos...
Aí, ficamos sem a noção do que seria novo, já que todas as coisas parecem seguir uma ordem natural, não sei de quê, ou quem. Nos perdemos, como perdemos a nós mesmos, sem a opção dos bolsos como porta-mistérios. Esquecemos retornos, perambulamos por caminhos ora tortuosos, ora confortáveis... Acostumamo-nos, e depois, nem reparamos que já não somos nós a viver.
Somos aquele cara velho, Aquela tia chata, aquele barrigudo triste... Aí, perdemos tempo em análises caras, interpretamos músicas para chorar depois "diz tanto sobre mim!", lemos poemas e notícias com a mesma avidez por respostas.
E assim vai... A personalidade cada vez mais concisa, no entanto, mais e mais dissolvida na Personalidade coletiva...
" (...) eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?" (Cecília Meireles)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Dos sonhos obscuros

E neles,
nos sonhos,
parece um rio cintilante,
o filete rubro de sangue que escorre,
indo desaguar no espaço vazio entre o corpo e o chão...
Os olhos encerrados sob as pálpebras,
imunes à qualquer vislumbre do mundo que fica.
E é tão sereno o semblante,
sem o arfar do peito,
ou o som do coração que ebole, quente,
quase saindo do peito de tanto descontentamento.
E a pele, clara,
esfria,
como um diamante límpido e transparente,
encerrado em um esplendor silencioso e áustero.
Equipara-se a uma clareza adquirida,
um libertar-se tão prazeroso,
que assemelham-se a asas as mortalhas,
elevando ao etéreo céu
a mente cansada,
para longe dos desesperos.
Cá,
fora da plenitude,
jaz junto ao corpo,
toda a dor de outrora...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Portal


Dos novos locais esculpidos em sonhos,
imagens replicadas de contos-reais
desenhadas em traços artísticos por
deus-sem-diploma-de-arquiteto,

(E se cubismo, realismo, impressionismo,
ou qualquer conformismo barato
delimitar os vértices vertentes de tintas,
nos pegamos contrastados por cores mortas)

Dos novos locais, dizia,
vertem os novos desejos
da verossímil-quase-realidade que nos espera,
quando os olhos fecham-se no cansaço.

(E resta-nos a certeza vestigial,
de que mais que pinceladas de tinta
em um ponto de vista unilateral,
nossas vidas são mais que vislumbre)

Dos novos locais esculpidos em sonho,
dos novos traços,
dos sentimentos acreditados,
da realidade quase factual,
o pseudo-existente, há ao ultrapassar-se o limiar do racional...

(E, se quadro, poema, conto...
pedaço-de-papel escrito, corrente elétrica em nervos...
vontades providenciais de qualquer mente divina, jogo de azar de números e átomos...
o que quer que seja a vida,
não é mais real que em meu sonho... Cá de olhos abertos, é bem menos etérea...)

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Oração ao Cosmos...

Eu quero é um mundo sem crédito,
um mundo sem trama, sem drama e sem roupa...
Eu quero é um café redobrado,
um café recém-coado, quente e amargo...
E quero ter mais reticência,
mais sutileza, e exata coerência...
Mas, de querer se embolam os desejos,
e de desejar, o coração está cheio,
posto que sonha o que as atitudes não podem fazer.
E de tão programados os atos,
na matriz genética gravados, impossibilitam-se as realizações,
e os caracteres herdados,
permanecem fadando
a personalidade inata e imutável,
à cristalização...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Pale Bluebird


Quando Bukowski disse que tinha um pássaro azul no coração, ri-me: Será possível, meu caro, que esse uísque temperado das tuas noites cause-te este tipo de devaneio? Mas cá eu, certa noite, ouvi o canto esquizofrênico do peito estremecer a caixa craniana com força! Orei-te Bukowski, pedindo auxílio, pois compreendi não ser a psicose que achava que fosse! Encerrei-me por completo, pois não choro, não temo, não amoleço. Sou tão dura quanto tu, e tão perdida. O pássaro azul voando no mediastino, fazendo vento com as asas, e cantando... O pássaro-azul-pedaço-de-céu-sem-nuvens tristinho e engaiolado cantava o canto da solidão. Terrivelmente só e engaiolado, sem liberdade desde que fomos paridos. E eu cá fora fechando todas as janelas. Escondendo de todos o vento no peito, a arritmia, a falta de consolo. Ah, Bukowski, aquela noite eu quis soltar o pássaro azul. Eu quis deixar que ele voasse, como tu fizestes. E te pedi a força necessária para fazê-lo. Mas só aquela noite! Não quero que ele foda a minha vida e minha imagem construída longa e concisamente. Despertei-o, e prendi-o! Que cante silenciosamente enquanto choro por dentro para que ninguém veja.